A cacique Madalena Pitaguary, 55, foi baleada na noite desta quarta-feira, 12, em Maracanaú, região metropolitana de Fortaleza. A líder indígena voltava para casa quando foi surpreendida por homem armado na rua Manoel Pereira. O disparo atingiu sua cabeça. A vítima está em observação em uma unidade hospitalar da cidade, mas não corre risco iminente de morte.

Madalena, que trabalha como professora, estava acompanhada de mais quatro pessoas quando foi abordada pelo atirador. Após o primeiro tiro na nuca, o atirador continuou tentando efetuar disparos na direção da cacique, mas a arma falhou. Não se trata de um caso isolado. Membros da etnia têm sofrido vários tipos de agressão. Já foram registradas tentativas de assassinatos; ameaças de sequestro; cárcere privado; dentre outras perseguições. Em agosto do ano passado, o agente de saúde Mazin Pitaguary, 45, teve 14% do seu corpo queimado após ter sido espacando e incendiado com gasolina dentro de casa. Em março de 2014, sua irmã, a liderança Ceiça Pitaguary foi atacada a golpes de facão, sofrendo ferimentos nos braços e na cabeça.

A também cacique Cláudia Pitaguary, que testemunhou o atentado da última quarta, cobra justiça. “Temos feito diversas denúncias ao longo dos anos para o risco de vida das lideranças à frente do nosso movimento, mas infelizmente não existe segurança para nós”, desabafa.

A violência é favorecida pela falta de conclusão do processo de homologação da Terra Indígena Pitaguary, reivindicada pelos índios há décadas. Atualmente, perto de 40% do território tradicional, de 1.735 hectares, se encontra invadido por posseiros. Além disso, duas empresas de mineração operam dentro da área declarada. Uma delas há poucos metros de um posto de saúde e de uma escola usados pela comunidade.

“Temos várias famílias fora das aldeias, que vivem às margens da rodovia e da linha férrea, empreendimentos estatais que rasgam nosso território. Isso é ruim por vários fatores, mas viola sobretudo o nosso direito de viver em nossas próprias terras com nossa cultura, nossa religião”, destaca Ana Clécia Pitaguary, 47, que estima em 5 mil o número de indígenas do seu povo.

Agente de saúde, Ana Clécia convive diariamente com pacientes com diversos problemas respiratórios provocados pela atividade das mineradoras. “Tive de lidar com óbito que os pulmões do indígena estavam acabados por conta do pó de pedra”, lembra. O pajé Barbosa Pitaguary chega a ter pesadelos com pedras enormes que rolam sobre as pessoas, as casas. Algumas vezes, teve tal pesadelo acordado: “Uma pedra destruiu a cozinha de uma Pitaguary. A geladeira partiu no meio. Ano passado uma outra pedra destruiu casas. Convivemos com isso”, relata.

A empresa Britacet é uma das causadoras do quadro denunciado pelas lideranças. Seu proprietário, Abdias Veras Neto, é presidente do Sindicato das Indústrias de Extração e Beneficiamento de Rochas para Britagem do Estado do Ceará (Sindbrita). Os Pitaguary movimentaram pelo menos três acões judiciais contra a companhia.

Em resposta, a Britacet ergueu uma muralha, impedindo o acesso dos moradores da aldeia Pitaguary de Munguba a um açude. Inconformados, os índios derrubaram parte da construção em protesto. A mineradora usou o incidente como pretexto para acusar judicialmente três lideranças (entre elas, Madalena) de uma série de crimes, inclusive o suposto “sequestro” dos operários que construíam o muro na hora da manifestação.

A Pedreira Brita-Boa é outro dos empreendimentos que impactam a vida da população originária. Ela tinha encerrado suas atividades há mais de 30 anos, mas conseguiu uma nova licença de mineração, e desde 2012 tenta no judiciário retirar à força um grupo de 28 indígenas de uma gleba de 3 hectares, no município de Pacatuba (CE).

O local, que foi reocupado pelos Pitaguary em 2011, tem uma importância ritual para a etnia. A decisão pela retomada é resultado de um problema criado pela FUNAI, na época em que realizou o Relatório de Identificação e Delimitação. “Na ocasião a equipe convenceu os mais velhos a abrirem mão de áreas importantes para nosso povo, essa pedreira e outras duas são exemplos”, explica Ana Clécia.

A cumplicidade estatal com as mineradoras também é criticada pelo pajé Barbosa: “Quando eu estudava, nós nos escondíamos atrás do paredão para se proteger das explosões. Já estou velho e parece que isso segue. Então os órgãos do governo assistem a esse horror e não fazem nada. Dizem que não gostamos do desenvolvimento, mas não acreditamos em desenvolvimento sem vida” afirma.