Com manifestações iniciadas na última segunda-feira (21) em diversos pontos do País, dos caminhoneiros é resultado de discussões sobre as condições de trabalho ruins em diferentes grupos do WhatsApp, de acordo com alguns caminhoneiros. Conforme contam alguns membros da categoria, os grupos de conversas eram utilizados para organização e divisão dos transportes, além de troca de informações sobre a situação das estradas.

Segundo ele, o movimento surgiu de forma descentralizada com os próprios motoristas autônomos. O trabalhador conta que “os sindicatos embarcaram na nossa. Eles vieram procurar a gente. Começamos a greve e eles nos apoiaram depois.”

Também em no Estado da , o caminhoneiro Enaldo Vieira está na BR-116, no município de Teofilândia. Ele explica que esses diferentes grupos de WhatsApp se comunicam entre si e, assim, uma única mensagem se amplia para até 7 mil, 10 mil membros. Vieira está em dez diferentes grupos de caminhoneiros. O motorista acrescenta que poucas vezes os sindicatos estiveram ao lado da categoria:

Jaisom Dreher, presente em uma das manifestações da rodovia Fernão Dias, no município de Betim (MG), reforça a ideia de que não houve uma composição oficial para os protestos, mas que a causa contagiou a todos. “Não teve uma organização central. Fomos nos falando por WhatsApp e aconteceu”, diz.

A ausência dos sindicatos nas discussões dos caminhoneiros também é ressaltada por Manuel Costa Filho, que está nas manifestações da BR-324, em Simões Filho (BA). “Não tem nenhum sindicato envolvido nessas conversas, nós não temos representante”, ressalta.

Porém, indícios apontam para outras versões possíveis. Dois caminhoneiros afirmaram em conversa que, a categoria já havia tentado se mobilizar em outros momentos sem a mesma adesão, e por isso acreditam que exista alguma articulação maior por trás das paralisações.

Essa articulação pode ser mais obscura do que parece. Apesar do aparente espontaneismo de muitos que se negaram a aceitar o acordo firmado pelo governo com empresários e presidentes de sindicatos, e permanecem nas estradas, foram identificados agentes de direita empenhados em manipular os caminhoneiros a se colocarem a favor de uma intervenção militar. Alguns têm usado de coerção para colocar faixas pedindo intervenção, e como muitos trabalhadores não possuem posição política definida, não se posicionam contra. Estes agentes infiltrados afirmam que tirarão Temer para impor os militares. Ao mesmo tempo, parece que fortes negociações de cúpula continuam acontecendo, visto que mesmo com Temer decretando GLO, as forças militares estão evitando reprimir os bloqueios.

Condições de trabalho

No entanto, muitos estão nas estradas pela indignação com as condições de trabalho. Os caminhoneiros contam que o movimento foi impulsionado por uma insatisfação comum com relação às condições de trabalho, que já estava insustentável. Segundo eles, 90% do valor do frete é gasto apenas com despesas da viagem, como combustível, pedágio, hospedagem, comida e manutenção mecânica dos caminhões.

Dos R$ 4 mil de um frete para transportar mercadorias de a Salvador, Alexandre Aparício gasta de R$ 3 mil com custos do trajeto. “A gente banca todas as despesas do caminhão, está tudo incluso na nossa parte do frete”, explica.

O motorista costuma transportar alimentos não perecíveis, brinquedos e mobílias.

“Se a gente não parasse agora, na greve, íamos parar por não termos condições de rodar. É uma situação muito crítica”, afirma Manuel Costa Filho ao relatar que vem notando há mais de um ano a desmotivação da classe.

“Nos postos de gasolina, só escutamos o pessoal querendo largar caminhão, querendo mudar de profissão, dizendo que o valor de frete vai quase todo na viagem”, contínua Costa Filho.

O caminhoneiro diz que para uma viagem da capital paulista até Porto Velho (RO) coloca no bolso R$ 1.200. O descontentamento não é diferente para Jaisom Dreher, que carrega eletrodomésticos por todo o País. Ele recebe livres R$ 1,5 mil de um frete de R$ 8 mil até Fortaleza (CE).

“Está inviável trabalhar hoje. Se continuar do jeito que tá vou desistir de ser caminhoneiro. Vou trabalhar como empregado. Nosso trabalho virou um leilão, ganha quem topar trabalhar mais barato”, declara Enaldo Vieira ao explicar que a quantidade grande de motoristas dispostos a trabalhar deixa o valor do frete pago para eles cada vez mais barato. O caminhoneiro transporta cargas rápidas, equipamentos hidráulicos e elétricos pelo Nordeste há 10 anos.

Ou seja, uma categoria que tem todos os motivos para parar, e que ao mesmo tempo possui poder para causar colapso ao sistema, pode estar sendo manipulada a direcionar as pautas da greve para uma intervenção militar. Setores da extrema direita vem se articulando por meio de uma série de movimentos como MBL (Movimento Brasil Livre) e Brasil 200 anos, defendendo privatização, livre mercado, fim das políticas sociais, e toda uma série de retirada de direitos. Tudo sob um discurso nacionalista e contra a corrupção.

– Atualizado 27.05