Na manhã de ontem, sexta-feira, caminhoneiros que não aderiram ao acordo sem a participação de toda a categoria, continuavam o protesto e o bloqueio de caminhões que tentavam seguir pela rodovia Washington Luís. Os trabalhadores afirmam que ainda há greve e que não aceitam a atuação do sindicato e de outras entidades. Os grevistas dizem que a baixa rentabilidade dos fretes, a falta de pontos de apoio nas estradas brasileiras e os preços altos dos combustíveis e de pedágios, cobrados mesmo quando o caminhão passa sem carga, contribuem para a paralisação.

O governo anunciou um acordo com representantes de caminhoneiros em Brasília para suspender a greve da categoria por 15 dias, mas os trabalhadores que permanecem reunidos desde segunda-feira em frente à Refinaria Duque de Caxias (Reduc), na região metropolitana do Rio, continuavam decididos a fincar o pé no local “até que seja publicado um decreto” contra os termos do acordo. A informação foi divulgada pela assessoria de imprensa da entidade que mencionou que o movimento “não acredita mais nas promessas do governo” e que, por isso, a paralisação só terminará quando a decisão “virar lei”. As entidades que não aceitaram o acordo com o governo e permanecem junto aos trabalhadores representam cerca de 700 mil caminhoneiros.

“Continuaremos firmes com o pedido inicial: isenção da alíquota PIS/Cofins sobre o diesel, publicada no Diário Oficial da União”, diz texto dos caminhoneiros que não suspenderam a paralisação.

No começo da quarta-feira (23), ministros deram declarações afirmando que os efeitos da greve não eram tão profundos. À tarde, no entanto, Eliseu Padilha (Casa Civil), Carlos Marun (Secretaria de Governo) e Valter Casimiro (Transportes) receberam organizações ligadas à categoria. Antes do encontro, o próprio presidente Michel Temer pediu uma trégua de três dias aos caminhoneiros para que pudesse ser encontrada uma solução.

A eficiência da greve

Linhas de ônibus suspensas no Rio de Janeiro, ameaça de falta de querosene de aviação em aeroportos de cinco capitais, falta de combustíveis nos postos de Recife (PE) e possibilidade de caos no transporte público de São Paulo. Em apenas três dias de paralisação de caminhoneiros e efeitos como estes foram sentidos em vários Estados brasileiros. O BRT do Rio interrompe a circulação na madrugada deste sábado (26) devido à greve dos caminhoneiros.

Não existe uma organização que possa ser apontada como líder da paralisação – na verdade, a proposta de greve começou a circular de forma espontânea em redes sociais e grupos de WhatsApp de caminhoneiros. Mas uma das principais entidades envolvidas é a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), que congrega a maioria dos sindicatos de motoristas autônomos. Outros sindicatos de caminhoneiros se juntaram aos protestos ao longo dos dias, como a Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam) e a União Nacional dos Caminhoneiros do Brasil (Unicam). O movimento acabou engrossado pelos caminhoneiros de frota também, isto é, por aqueles que são contratados, com carteira assinada, por transportadoras.

O balanço dos grevistas menciona 253 pontos de protestos, atingindo 23 Estados brasileiros e o Distrito Federal.

Fotografia: Alex Magrão

Reivindicações

A principal reivindicação dos manifestantes é a queda do preço do óleo diesel, combustível usado pela maioria dos veículos de grande porte. Os caminhoneiros questionam a variação de preço que flutua de acordo com a cotação do dólar e o valor do petróleo no mercado internacional. Eles pedem que o governo estabeleça uma regra para os reajustes do produto. Outras pautas foram somadas às reivindicações, como o pagamento de pedágio. Os motoristas querem a isenção do pagamento relativo aos eixos suspensos quando o caminhão está vazio.

Os manifestantes defendem também a aprovação do projeto de lei 528, que cria uma política de preços mínimos para o frete e o marco regulatório para caminhoneiros. Isso evitaria a frequente situação que os caminhoneiros passam, quando fazem a estimativa do frete e, durante o trajeto, o preço do combustível aumenta, invalidando os cálculos prévios.

Nos últimos dias, surgiu nas redes sociais a versão de que a greve dos caminhoneiros seria um “locaute”. Só para lembrar, “locaute” (do inglês lockout) é uma paralisação provocada por empresários. Nesse sentido, locaute é o contrário de uma greve que ocorre com a paralisação dos trabalhadores. Um locaute histórico foi realizado em 1972 e 1973 pelo empresariado chileno contra o governo de Salvador Allende. O locaute fracassou quando os trabalhadores decidiram enfrentar a conspiração para paralisar o país. Muitas fábricas foram ocupadas e os meios de transporte foram em muitos casos requisitados. Os comércios também foram abertos à força.

A atual greve dos caminhoneiros é mais do que justa, obrigou Temer a negociar, e tem apoio da população e pode impulsionar a convocação de uma necessária Greve Geral no país. E sem dúvida ela também arrasta outros setores da classe trabalhadora que estão entrando em greve país afora.

A contradição

Sem dúvida o movimento dos caminhoneiros é heterogêneo, onde pode se encontrar contradições graves como pedidos de intervenção militar, regime ditatorial que inclusive proibiria a própria greve e suas reivindicações. Contradições que não estão somente na categoria dos caminhoneiros, mas no seio de nossa sociedade.

Na situação em que nos encontramos, com o aumento da inércia, não poderemos reclamar quando o movimento, ainda sem viés ideológico hegemônico, guinar totalmente à direita. O que poderia ser o prenúncio de uma verdadeira Greve Geral, pode acabar por se tornar em mais um enorme clamor por privatizações.

Temer autorizou o uso do Exército para reprimir os bloqueios e o direito à greve dos caminhoneiros. Na Reduc, caminhões saíam abastecidos e eram escoltados pelo Exército. Os caminhoneiros cederam à pressão e repressão que viria do Exército, caso mantivessem os bloqueios. Na prática a intervenção militar no Brasil que os setores da direita, que disputam o movimento grevista, pedem calorosamente, aconteceu e acabou com os bloqueios na luta por direitos. Cabe aos trabalhadores perceberem a função das Forças Armadas no Estado capitalista: conter, principalmente, o que os militares chamam de guerra interna, que significa a repressão ao próprio povo.

Fotografia: Alex Magrão

Fotografia: Alex Magrão

Fotografia: Alex Magrão