Mais um jovem negro e pobre é executado pelo Estado e tratado como criminoso. O jovem motociclista, Diego Augusto R. Ferreira, de 25 anos, foi assassinado a tiros por um dos oficiais do Exército na noite do último sábado (12), apenas por não parar em uma bloqueio do Exército, na Vila Militar, Zona Oeste do Rio. Familiares de Diego contestam as informações que pretendem criminalizá-lo e justificar seu assassinato, de que a vítima usava drogas e tinha passagens pela polícia. Segundo eles, o jovem tinha problemas de audição e não teria ouvido a ordem de parada do soldado, que não teria dado nenhum tiro de advertência antes de disparar contra o rapaz – o que também seria um absurdo. O jovem morreu no local.

A mãe de Diego, a dona de casa Claudia Marcelino, 45, defendeu o filho: “Estão distorcendo tudo. Ele não estava com drogas, e ainda que estivesse a Justiça existe para isso, não justifica matarem ninguém dessa forma, não deram nem direito dele falar”. A irmã dele, Yasmim Roger, 22, disse que o irmão estava em uma motocicleta emprestada. “Ele estava indo comprar óleo diesel para o nosso tio. Ele não era bandido, nem era usuário de drogas, era um trabalhador, estava todo dia na Uruguaiana”, explicou ela.

“O procedimento está dentro das nossas regras de engajamento”, diz o coronel Carlos Cinelli

O Exército investiga se o jovem tem “passagem na polícia” para justificar o assassinato. A polícia sequer abriu inquérito, pois o crime ocorreu em área militar. O caso será acompanhado pela Justiça Militar.

A tendência é que o caso seja julgado pela Justiça Militar após lei sancionada pelo presidente Michel Temer, em outubro do ano passado, que alterou o Código Penal Militar. A legislação atual prevê que o julgamento de crimes dolosos praticados por militares contra civis, durante exercício da profissão, vá para o júri especializado. É, na prática, licença para matar para os militares.

“Meu filho caiu a óbito, me contaram que pediram que meu irmão pediu a ele pra comprar óleo pro caminhão, que minha amiga trabalha vendendo cestos. Aí meu filho pegou moto emprestada e foi comprar. Na volta, nossa família tem problema de surdez, ele não escutou. Ele veio subindo, e o moço deu o tiro e ele caiu logo morto”, afirmou a mãe de Diego, Ana Cláudia.

De acordo com o avô, Diego tinha acabado de voltar do trabalho. “Estava chegando do trabalho. Tá sem emprego de carteira assinada, mas tá na Uruguaiana vendendo bolsas”.

Intervenção federal e militar no Rio

A segurança pública do Rio de Janeiro está sob comando das Forças Armadas desde 16 de fevereiro deste ano, quando o presidente Michel Temer assinou o decreto de intervenção federal. Em paralelo a isso, ainda está em vigência a Garantia da Lei e da Ordem (GLO), medida estabelecida pelo Governo Federal, em maio de 2017, para conferir ao Exército os poderes de atuar na segurança pública do Rio de Janeiro. Nesse curto período, os militares protagonizaram uma chacina em São Gonçalo, no Morro do Salgueiro; na Rocinha, nove pessoas assassinadas; terrorismo policial na Cidade de Deus e mais assassinatos; violência contra trabalhadores na Vila Kennedy; mais de 150 pessoas presas ilegalmente na zona oeste, ação tratada como vitoriosa contra a Milícia, e que se descobriu um grande fiasco. Marielle Franco, Defensora dos Direitos Humanos, e seu motorista, Anderson Gomes, foram executados há dois meses e ninguém foi preso. Na verdade, nada mudou. Ou melhor, mudou, para pior. Com o Exército nas ruas, a violência do Estado contra o povo aumentou, como a morte do jovem Diego.