A rebelião popular levou o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, da intransigência e arrogância à retirada da , de conteúdo antipopular. Ortega revogou neste domingo (22) a Social que resultou em cinco dias de intensas manifestações em diversas cidades do país. Os protestos foram duramente reprimidos pela repressão policial. Até o momento, o número é de 30 pessoas assassinadas pela polícia, entre elas, um jornalista que cobria os protestos. São dezenas de feridos. O presidente aceitou que suas propostas não tinham “viabilidade” e criaram uma “situação dramática”, razão pela qual recuou em sua implementação. Um belo exemplo de luta para os povos latino-americanos atacados diariamente pelas medidas dos Estados capitalistas. As manifestações tiveram início na quarta-feira (18), na capital do país, Manágua, e em León, alargando-se a outras partes do país.

Novos confrontos entre jovens manifestantes e a polícia de choque irromperam em Manágua depois de um discurso televisionado do presidente Ortega no sábado (21) à noite. Os manifestantes colocaram barricadas nas ruas e atiraram pedras na repressão policial. A reforma imposta na quarta-feira por Ortega em decreto reduzia as aposentadorias em 5% e aumentava as contribuições das empresas e dos trabalhadores para resgatar o Instituto Nicaraguense de Seguridade Social (INSS). O Governo pretendia arrecadar 250 milhões de dólares (cerca de 854 milhões de reais).

“Nós estimamos que o número de mortos ultrapassa vinte vítimas, mas estamos verificando que há muita desinformação. A situação é realmente grave e reduz a nossa capacidade de fornecer números oficias”, disse a presidente do Centro Organização dos da Nicarágua (Cenidh), Vilma Nuñez.

No sábado, Ortega havia afirmado que seu único interlocutor para encontrar uma saída à crise era a empresa privada, com a qual estava disposto a dialogar. Em seu discurso neste domingo (22), o presidente não se referiu à violência desencadeada pelo Estado contra os manifestantes, nem às dezenas de mortos e feridos. O presidente propôs novamente um diálogo, convidando os empresários e o cardeal Leopoldo Brenes a “elaborar uma resolução capaz de garantir o fortalecimento da previdência social no longo prazo”. Com essa decisão, Ortega espera reduzir a tensão nas ruas, onde as manifestações contra seu Governo se intensificaram.

Os manifestantes não cederam em seus protestos, apesar da violenta repressão das tropas de choque e das forças de repressão do governo. “Eu participo da manifestação porque quero uma Nicarágua sem ditadura. Não é justo que o nosso país continue sofrendo com um Governo que reprime, que não respeita os direitos das pessoas”, disse no sábado Erik Rocha, um jovem de 22 anos em uma manifestação em Manágua. “Aqui não há diálogo como o presidente pediu, é uma estratégia para continuar zombando do povo”, acrescentou. Os bispos também tomaram o partido dos manifestantes, exigindo no sábado que o presidente Ortega colocasse fim à violência do Estado.

Os protestos tornaram-se mais intensos quando o presidente Daniel Ortega resolveu “abrir diálogo” apenas com a cúpula empresarial (Cosep), desprezando os setores populares que impulsionam a . A brutal repressão também levou multidões revoltadas às ruas. O governo afronta a rebelião afirmando que é produto de “minorias” que estariam manipulando os jovens, mas se recusa a reconhecer suas medidas antipopulares e privilegia acordos com os capitalistas.

Daniel Ortega é da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que tem em sua história a revolução popular ocorrida na Nicarágua entre 1979 e 1990 – assim chamada em memória ao líder de esquerda Augusto César Sandino, que depôs a ditadura de Somoza (Anastasio Somoza Debayle). A FSLN foi a primeira revolução que aliou o cristianismo de libertação e o marxismo, e governou o país por onze anos. Vários movimentos contra a ditadura de Somoza resultariam na formação da Frente de Libertação Nacional da Nicarágua, que seria o embrião do que ficou conhecido mais tarde como a FSLN.

O governo da outrora revolucionária Frente Sandinista, que voltou ao poder em 2006 em aliança com setores da direita na onda de ascensão de governos “progressistas” na região, decretou uma reforma da Previdência que aumenta taxas de contribuição para patrões e assalariados, mas o item que mais causou revolta foi uma taxa de 5% sobre quem já está aposentado. O argumento, o mesmo dos governos abertamente direitistas como Macri e Temer, o da inadimplência do sistema de seguridade social. O governo acusa “manipuladores” por trás dos enormes protestos, e com certeza em breve que eles foram fruto de campanhas sorrateiras das elites e do imperialismo dos Estados Unidos da América (EUA) contra mais um governo de “esquerda” latino-americano.

Claro que o empresariado, contrariado também pelo aumento de sua contribuição, e os círculos reacionários dos EUA, não vão perder a oportunidade de tirar proveito da situação, mas basta ver como os ataques à previdência pública tem gerado grandes e legítimas mobilizações na Argentina, Chile e até no Brasil, para desmascarar o oportunismo da versão sandinista sobre a revolta popular.