Mais uma chacina na Rocinha. Extermínio foi premeditado por policiais.

Na manhã do último sábado (24), policiais militares do Batalhão de Choque realizaram mais uma chacina na Rocinha, zona sul do Rio. Foram oito pessoas assassinadas, a maioria com tiros nas costas. Diferente do que tem sido divulgado pela corporação, áudios vazados e postagens em redes sociais revelam que o massacre foi premeditado. Fotos divulgadas sugerem execuções. Moradores denunciam que os agentes entraram na favela por volta das 6 horas da manhã, atirando e gritando “quem manda aqui é a polícia!”.

A polícia busca ao máximo a sua justificativa para a chacina: “de que todos tinham envolvimento com o tráfico”, o que obviamente não justifica. Não importa se os rapazes eram ou não trabalhadores varejistas do tráfico. Não há pena de morte no Brasil. A polícia não pode e nem deve decidir quem morre e quem vive. Moradores relataram intenso tiroteio, que teve início logo de manhã. Parentes afirmam que não houve reação e as vítimas não tinham ligação com o tráfico de drogas. A operação parece mais uma “operação vingança” da polícia militar, já que na última quarta-feira um policial morreu em confrontos na favela.

Além das balas de munição letal, a tropa também lançou mão de gás de pimenta e distribuiu socos e chutes em transeuntes, inclusive mulheres. As mortes aconteceram nas localidades conhecidas como Rua 2 e Roupa Suja, onde minutos antes era realizado um baile funk. Áudios vazados de grupos de policiais no aplicativo WhatsApp e atualizações publicadas pelo Major da PM Elitusalem Freitas em sua página do Facebook dão conta de um massacre premeditado que tinha até mesmo um placar de mortes por batalhão. Os áudios indicam que a chacina foi resultado de uma “operação vingança”, em retaliação pela morte do soldado da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha Felipe Santos Mesquita. Felipe foi alvejado no abdômen durante uma operação na favela na última quarta-feira, a mesma que tirou a vida do catador de ferro velho Antonio Ferreira da Silva, de 70 anos, conhecido como “Marechal”.

A chacina aconteceu na manhã em que Marechal era enterrado, no Cemitério do Caju, zona portuária. Muitos moradores que quiseram se despedir do antigo vizinho foram impedidos pelo tiroteio. No Instituto Médico Legal (IML), parentes das vítimas enfrentavam uma enorme burocracia para liberar os corpos. O auxiliar de serviços gerais Júlio Morais de Lima, de 22 anos, foi um dos assassinados, baleado nas costas quando saía para trabalhar.

“Que mundo é esse? A polícia chega, mata um monte de gente dando tiro pelas costas, atirando em todo mundo que está na rua, mostra lá umas armas, diz que era todo mundo bandido e pronto. E a gente? Como fica?”, questiona um tio de Júlio. O adolescente Matheus da Silva do Duarte, de 18 anos, foi outra das vítimas.

O pai de Matheus da Silva Duarte de Oliveira (foto), de 18 anos, contou que o filho foi assassinado pelas costas. Ele afirmou que o rapaz não tinha qualquer envolvimento com o tráfico de drogas e que participava de um baile funk na localidade quando os policiais militares chegaram no local, por volta das 6 horas da manhã.

“Mataram meu filho. Tinha 19 anos. Sou trabalhador, sou cobrador de van. Eles já chegaram esculachando morador, dando tapa na cara. Mataram meu filho com um tiro nas costas”, disse Márcio Duarte de Oliveira. Ele acrescentou que o filho estava procurando emprego e que ele sempre dava dinheiro para o filho se divertir no baile funk.

Matheus da Silva Duarte de Oliveira, de 18 anos

Matheus participava de um projeto que se apresentava em festas de 15 anos, dançando valsa. Na sexta, o jovem havia se apresentando com um grupo em São Gonçalo. Ao voltar para a Rocinha, por volta de 2 h, recebeu o cachê de R$ 50 e decidiu ir com alguns amigos se divertir no baile. Seu pai, o cobrador de van Marcio Duarte de Oliveira, de 45 anos, também desmente a explicação oficial de que as mortes teriam sido decorrentes de um suposto “confronto” entre policiais e traficantes: “Tem que ter justiça. Como a gente vai viver agora sem nosso filho e ainda com as pessoas insinuando que ele era traficante?”, se indignou Márcio.

No relato inicial da polícia, o jovem dançarino sofre a absurda acusação de que teria atirado contra os agentes com uma pistola 9 mm. Além de Júlio e Matheus, também foram identificados os cadáveres de Osmar Venâncio do Nascimento, 45 anos, Bruno Ferreira Barbosa, 24, Hércules de Souza Marques, 26, Magno Marinho de Rezende, 28 e Wanderson Teodoro de Souza, 21. Como de costume, o Estado tenta justificar a carnificina criminalizando as vítimas.

A informação inicial divulgada pela polícia militar dava conta de que todos os oito mortos teriam envolvimento com o narcotráfico. Narrativa reproduzida por todas as grandes empresas de jornalismo antes mesmo de qualquer investigação a ser realizada. As contradições, no entanto, não demoram a aparecer. Dois dias depois, a versão dada pelo porta-voz da corporação, o major Ivan Blaz, já é a de que “quatro deles tinham antecedentes criminais”. Como se o fato de alguém ter sido acusado de algum delito pela polícia desse a ela o direito de executá-lo. Nos últimos seis meses de operações policiais na Rocinha, cerca de 52 pessoas foram assassinadas e 13 ficaram feridas na favela.

* Atualizado dia 27.03