“Queremos que o bairro queime e que todo mundo fique sabendo”

Jovem senegalês foi morto após uma perseguição policial por simplesmente estar trabalhando como camelô, em meio a uma operação de repressão ao comércio informal, na rua no bairro de Lavapiés, em Madrid, na Espanha. Prática comum da polícia municipal de Madrid. O rapaz sofreu um ataque cardíaco. Mame Mbaye tinha 35 anos e vivia no Estado espanhol há 12 anos. Várias testemunhas e um colega do vendedor relataram que os agentes da polícia perseguiram o trabalhador antes de sua morte, desmentindo a versão policial.

Dias seguidos de protestos após a morte, que aconteceu no dia 15, quinta-feira passada. Centenas de pessoas se reuniram ainda no mesmo dia para protestar contra as incursões policiais constantes que existem na área contra os vendedores ambulantes e para expressar a sua dor e pela morte de Mmame Mbage. Por volta das 21 horas começaram as agressões policiais para acabar com a manifestação, utilizando balas de borracha e cassetetes para reprimir os manifestantes. A apenas aumentou.

O esqueleto de uma motocicleta continuava cheirando a pneu queimado quando, no começo da madrugada, um grupo de manifestantes se dirigia à praça Nelson Mandela pela rua Mesón de Paredes, no bairro de Lavapiés, em pleno centro de Madri. No caminho, manifestantes gritavam palavras de ordem contra a polícia, culpada pela morte do trabalhador ambulante. “Justiça!”, “Assassinos!”, gritavam. No trajeto da manifestação, cerca de 20 contêineres de lixo queimavam. “Queremos que o bairro queime e que todo mundo fique sabendo, pelo que aconteceu nesta manhã”, disse um apoiador e manifestante de nacionalidade espanhola. Os protestos continuaram na sexta-feira (16) e no sábado (17), tendo confrontos com a polícia. Vários agentes da repressão policial ficaram feridos.

Na praça Nelson Mandela, a população revoltada quebrava cabines telefônicas e queimavam as bicicletas públicas. Os manifestantes atiravam paralelepípedos nas vitrines da praça. Em Lavapiés, 50% da população é de origem estrangeira, e esse é considerado o bairro mais multicultural de Madrid, com a maior concentração de associações e movimentos comunitários na capital espanhola.

“Por favor, as árvores não. São para as crianças”, reclamava uma mulher, aos prantos, dirigindo-se a jovens que saltavam sobre algumas delas. “As crianças? Uma pessoa acaba de morrer e você se preocupa com as plantas?”, respondeu indignado um dos manifestantes. “Você acha que eu não gostaria de viver como você? Precisei fugir do meu país. Não faço mal a ninguém, só vendo roupa, e se a polícia me vê me agride. Por quê? Se você vier ao meu país nós te recebemos com os braços abertos, não com socos”, dizia um mantero (como são conhecidos os vendedores ambulantes na Espanha) a uma moça. Os manifestantes quebraram os vidros de agências bancárias e expropriaram vários objetos de lojas.

“Já chega de maus tratos. Estamos cansados. Estamos reivindicando nossos direitos. O que a polícia fez é totalmente injusto em pleno século XXI. É ilegal e racista. As autoridades espanholas são cúmplices”, declarou um homem aos jornalistas. Por volta de meia-noite, os agentes começaram a entrar na praça, e a maioria dos manifestantes se dispersou. Alguns não recuaram e continuaram atirando pedras contra a tropa de choque da polícia que disparava balas de borracha. “Sim, eles o mataram”, lia-se em um cartaz.

Policiais, nazismo e fascismo

Há alguns meses vieram a público diversos comentários nazistas em um grupo de WhatsApp de policiais municipais na Espanha, onde se podia ler: “Hitler era um senhor, com ele as chaminés estariam sempre fumegantes”; “o fascismo é alegria”; “Filhos da puta, os mouros”; “Estamos onde devemos estar, nas ruas. E matar é o nosso lema” […]