, Salvador, 06.02.2018

Hoje completa três anos da do Cabula, quando policiais militares das Rondas Especiais da Bahia (Rondesp) executaram 12 jovens negros na Vila Moisés, no bairro do Cabula, em Salvador. A aconteceu em um campo de futebol. Outros seis conseguiram escapar, fingindo-se de mortos. Vila Moisés ouviu naquela madrugada cerca de 500 tiros, sendo que 100 deles atingiram pessoas já rendidas, sem chance de defesa. Nove policiais militares foram inocentados pela juíza Marivalda Almeida Moutinho, acusados pelos assassinatos no dia 6 de fevereiro de 2015.

O Ministério Público Estadual, com provas, laudos e depoimentos, comprovou a ação premeditada da polícia. O Ministério Público Federal pediu a federalização do caso, por entender a falta de isenção do estado da Bahia em apurar e ser responsabilizado por essas mortes.

As conclusões baseiam-se em depoimentos de testemunhas e perícias para afirmar que houve uma chacina, contradizendo frontalmente a versão da PM baiana, que informou que, naquela noite, seus homens se enfrentaram com cerca de 30 criminosos que se preparavam para explodir caixas eletrônicos. Foi uma ação “enérgica”, definiu, na época, o secretário de Segurança baiano, Maurício Barbosa, diante do saldo da operação, que deixou um policial ferido de raspão. O governador, Rui Costa (PT), comparou os policiais a “artilheiros” de futebol diante de um momento decisivo. “Eles [os mortos] vieram bem articulados, inclusive com uniforme. Estavam camuflados também”, afirmou o comandante da PM, Anselmo Brandão. O episódio agrava o histórico recente da Rondesp, as rondas especiais que se inspiram na Rota, a unidade especial da Polícia de famosa pela violência. A PM da Bahia ocupa o terceiro lugar, depois de Rio e , no ranking da polícia que mais mata no país.

A Chacina do Cabula está marcada na história, com os ecos dos gritos de dor daquela madrugada, o choro de uma inteira que viu aqueles garotos crescerem por entre seus becos e escadarias, na revolta e incompreensão da brutalidade sórdida dos policiais militares.

• A história do Cabula

Cabula, antigo quilombo, destruído em 1807 a mando do então governador e capitão general da Capitania da Bahia, é lugar histórico de resistência e, por decorrência, de perseguição aos negros. Cabula (kimbula), lembra Yeda Pessoa de Castro, na obra Falares africanos na Bahia (2001), é uma palavra de origem banto da língua quicongo. Um dos significados remete ao toque de chamamento para a luta. E diziam que o som dos tambores era tão alto que atormentava os escravocratas.

Ainda que se executem negros e negras no Cabula, a resistência faz parte da sua natureza. É ancestral. A palavra carrega a força do nome e continuará incomodando os genocidas. Cabula é grito de guerra, ritual de luta. Pelos jovens mortos continuam ecoando os tambores ensurdecedores do quilombo e como um machado rasgando a noite se escutará ao longe 12 vezes Cabula…