O presidente de extrema direita do Equador, Daniel Noboa, que tem como pautas principais o neoliberalismo e o aumento da repressão, vêm enfrentando fortes manifestações e greves contra o seu governo.
Na última sexta-feira (13), milhares de pessoas foram às ruas na capital e em várias outras cidades equatorianas para protestar contra as reformas trabalhistas que pretendem realizar cortes nos serviços públicos de saúde e educação, promovendo o aumento do desemprego e da insegurança.
Confrontos entre manifestantes e a polícia ocorreram em diversas áreas da capital durante o protesto, que denuncia as políticas de austeridade do governo neoliberal de Noboa.
Os manifestantes exigem a renúncia do empresário e apoiador de Donald Trump, que recentemente se mostrou aberto à operações conjuntas com os EUA dentro do próprio país, apesar da rejeição, no referendo de 2025 no Equador, da proposta de Noboa de abrir bases militares americanas em território equatoriano.
A greve geral e o resultado do referendo em 2025 marcaram uma virada para o governo, enfraquecendo-o e lançando incertezas sobre o futuro do país.
Política econômica neoliberal
Daniel Noboa continua a avançar com sua agenda política e econômica neoliberal. Nas últimas semanas, o Ministro do Trabalho, Harold Burbano, anunciou a aprovação do Acordo Ministerial MDT.2026-059, que permite o aumento da jornada de trabalho por meio de acordos que flexibilizam as condições de trabalho no Equador.
Durante várias décadas, após significativas lutas do movimento sindical equatoriano, a jornada máxima de trabalho foi fixada em 8 horas. No entanto, os empregadores têm buscado incansavelmente minar essa conquista sindical. Assim, o governo de Noboa – que pertence à família mais rica do país – decretou que jornadas de trabalho de até 10 horas podem ser implementadas.
O governo defende a decisão argumentando que o mercado passou por mudanças radicais e que a medida não aumenta a carga horária semanal (que, segundo o Ministro Burbano, permanecerá em 40 horas semanais), mas apenas a diária, e que esta pode ser distribuída de forma mais flexível. “Esta não é uma proposta da extrema-direita nem da extrema-esquerda, mas uma solução pragmática para as necessidades das pessoas”, afirmou Burbano em entrevista a uma rádio.
No entanto, alguns críticos do governo argumentam que a medida abre caminho para futuros aumentos na jornada de trabalho semanal, que podem ser implementados sem grandes complicações. Além disso, apontam que a medida facilita aos empregadores a sonegação de horas extras, que representam até 30% da renda dos trabalhadores.

Protestos contra a flexibilização do trabalho
A medida, que, segundo os principais sindicatos do país, não foi discutida nem acordada com os trabalhadores, causou amplo descontentamento entre as organizações sindicais. Assim, em 13 de março, uma grande marcha ocorreu em Quito, capital do Equador, exigindo a revogação do acordo ministerial que, segundo os líderes sindicais, torna os empregos dos trabalhadores mais precários e prejudica diretamente seus direitos.
Também houve protestos de trabalhadores em Guayaquil, a cidade mais populosa do país, onde manifestantes marcharam pela Avenida Nueve de Octubre para expressar sua oposição ao governo Noboa. Protestos contra o Poder Executivo também ocorreram na região amazônica, com manifestantes exigindo o envio de medicamentos e suprimentos médicos essenciais – uma questão que tem gerado fortes críticas ao governo por sua incapacidade de lidar com a grave crise de saúde pública.
Entre as organizações que convocaram as manifestações estavam a Frente Unida dos Trabalhadores (FUT), a União Nacional dos Educadores (UNE) e a Frente Popular (FP), entre outras. Milhares de manifestantes – incluindo trabalhadores, estudantes, ambientalistas e outros – marcharam pelas ruas do centro de Quito entoando slogans como “Abaixo a reforma trabalhista” e “Fora Noboa, fora”.
Na verdade, a manifestação reuniu não apenas trabalhadores que exigiam a revogação do acordo ministerial, mas também diversos grupos e movimentos sociais contrários a uma série de medidas controversas implementadas pelo governo Noboa, como a Lei de Mineração e Energia, que permitiria a extração de materiais rochosos nas Ilhas Galápagos (uma reserva ecológica) e maior proteção às empresas de mineração em detrimento dos interesses das comunidades locais; além de centenas de cidadãos que protestavam contra uma lei que obriga os municípios a investir 70% de seus recursos em obras públicas, o que destruiria um grande número de projetos sociais, educacionais e de saúde realizados pelos municípios e levaria a demissões em massa.
Em relação ao aumento da jornada de trabalho semanal, o presidente da FUT, Edwin Bedoya, afirmou que a decisão de Noboa visa beneficiar os empregadores em detrimento dos direitos dos trabalhadores. Ele também enfatizou que “um dos objetivos é reduzir os custos trabalhistas para o setor empresarial, a fim de cumprir as exigências do Fundo Monetário Internacional”.
Por sua vez, o líder do principal sindicato dos professores do país, Andrés Quishpe, afirmou que o governo Noboa demonstrou não ter interesse em seguir a vontade do povo, após a maioria dos equatorianos ter rejeitado nas urnas as tentativas de Noboa e seu grupo econômico de flexibilizar as leis trabalhistas. Assim, Quishpe enfatizou que “não há outra saída senão confrontar Noboa nas ruas”.
Organizações trabalhistas anunciaram que continuarão a ir às ruas para defender os direitos que conquistaram.

Repressão contra trabalhadores
Quando a manifestação chegou à Praça de Santo Domingo, em Quito, um contingente policial fortemente armado disparou gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral contra os manifestantes que se recusaram a dispersar. Os manifestantes responderam atirando pedras e derrubando as barricadas que as forças de segurança haviam erguido em diversas ruas para restringir sua circulação.
A violência com que a polícia agiu foi denunciada por diversos veículos de comunicação que cobriam o protesto. Entre eles, Elena Rodríguez, da TeleSur, publicou um vídeo em sua conta no X mostrando policiais montados atropelando um cidadão e espancando outro: “Um homem foi atropelado por motocicletas da polícia; não parece um acidente, mas sim uma ação deliberada. Ao mesmo tempo, outro cidadão estava sendo espancado com cassetetes por policiais. Com que protocolo eles agem dessa forma contra manifestantes?”
Após a derrota eleitoral de Noboa em novembro de 2025 – que bloqueou seu caminho para a tão esperada Assembleia Constituinte destinada a revogar a Constituição de 2008 (que protege as liberdades civis, defende a soberania e a importância do Estado na vida pública) – Noboa tem se concentrado em reformar leis municipais, ambientais, de mineração, de energia e trabalhistas, entre outras, por meio de um Parlamento que ele controla e que, por enquanto, permanece leal à agenda do presidente.

Queda nos índices de aprovação
No entanto, as decisões impostas – com pouco ou nenhum diálogo – em meio a outras circunstâncias, como a crise de saúde pública, a pior crise de segurança da história do Equador e a prisão de líderes da oposição, como o prefeito de Guayaquil, Aquiles Álvarez, entre outros, parecem estar criando uma sensação de inquietação que cresce gradualmente com o passar do tempo.
Em outubro de 2025, segundo algumas pesquisas, quase 60% da população aprovava o desempenho do presidente Noboa. Em fevereiro de 2026, esse índice de aprovação havia despencado para 38%, o que, de acordo com o instituto de pesquisa CIEES, reflete a percepção dos equatorianos de que o governo cometeu muitos erros e que as pessoas não conseguem identificar nenhuma conquista notável da administração de Noboa. Além disso, o estudo do CIEES indica que existe um pessimismo generalizado na população, com uma taxa de prevalência em torno de 72%, um dos níveis mais altos dos últimos anos no país sul-americano.
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Fontes:
– Ecuadorian workers fight back against 10-hour workday
– Police fire tear gas during protest against labor reform in Ecuador
– Anti-government protest in Quito
Tradução: M1508
