No século XIX, a ação imperialista belga se estabeleceu na região do , na parte central do continente africano. Em 1885, o domínio belga nessa região foi confirmado na chamada Conferência de Berlim, quando o rei Leopoldo II transformou o extenso território em sua propriedade pessoal.

Além de confiscar terras e aldeias inteiras de congoleses, o monarca fez da escravidão a principal forma de trabalho em seus domínios. Logo Leopoldo II aumentaria a carga de tributos e literalmente se tornaria dono de toda borracha e marfim extraídos no país africano. Suas vontades foram garantidas com a ajuda da Força Pública, um temível corpo de soldados reforçado por mercenários.

Assassinatos, amputações, estupros e saques eram comuns em casos de cotas não cumpridas. Tentativas de resistência mais veementes eram brutalmente reprimidas. A violência era tamanha que estudiosos estimam em 8 a 10 milhões o número de pessoas mortas no período (o equivalente a quase metade da população congolesa de então).

Ilustração do livro “The Congo and the founding of its free state; a story of work and exploration (1885).” de H.M. Stanley

No ano de 1908, o território congolês deixou de ser uma possessão privada do rei e passou a ser controlado pelo Estado da Bélgica, recebendo o nome de Congo Belga. Na década de 1950, no entanto, a maior parte dos congoleses já não tolerava mais o jugo colonial.

Em 1955, uma visita oficial do rei Baldouin I reforçou o sentimento autonomista, após os belgas se recusarem a atender a uma série de demandas sociais, políticas e econômicas da população nativa.

Em 1956, Patrice Lumumba era um ex-funcionário dos correios e ex-vendedor de cerveja, que havia sido duas vezes preso por conta de suas ideias rebeldes. Na cadeia, participa da fundação de um partido político, o Movimento Nacional Congolês, o MCN.

Em 1958, o Congresso Pan-Africano fortaleceu as lideranças nacionalistas do continente, dentre as quais se destacava o congolês Lumumba. No ano de 1959, a radicalização das manifestações acabou forçando a coroa belga a reconhecer a independência congolesa.

O Dia da Independência foi celebrado em 30 de junho de 1960 em uma cerimônia assistida por muitos dignatários, incluindo o rei da Bélgica e a imprensa internacional. Em sua fala, Baldouin elogiou o “desenvolvimento” conseguido durante o colonialismo,  fazendo referência ao “gênio” de seu grande tio-avô, Leopoldo II.

“Não comprometam o futuro com reformas precipitadas, e não substituam as estruturas que a Bélgica vos passou para as mãos antes de estarem certos de que podem fazer melhor [… ] Não tenham medo de vir até nós. Nós vamos continuar ao vosso lado, dar-vos conselhos”, afirmou, de maneira paternalista.

Lumumba fez o seu famoso discurso de independência depois de, apesar de ser o novo primeiro-ministro, ter sido oficialmente excluído do programa do evento. Dirigindo-se diretamente ao monarca e aos ministros da Bélgica, reivindicou a história e a dignidade do povo congolês em suas longas décadas de luta pela libertação:

“Quanto a esta independência do Congo, […] nenhum congolês digno desse nome deverá nunca esquecer que foi lutando que a conseguimos, uma luta dia-a-dia, uma luta apaixonada por ideais, uma luta em que não poupamos privações nem sofrimentos, e pela qual demos a nossa força e o nosso sangue […]

Desta luta, que foi de lágrimas, fogo e sangue, estamos orgulhosos até ao mais profundo de nós mesmos, pois foi uma luta nobre e justa, uma luta indispensável para por fim à humilhante escravidão que nos era imposta pela força.

Qual foi a nossa sorte durante 80 anos de regime colonial, as nossas feridas estão ainda muito frescas e muito dolorosas para que nós possamos removê-las da nossa memória; nós conhecemos o trabalho exaustivo, exigido em troca de salários que não nos permitiam nem comer para matar a nossa fome, nem nos vestir ou morar decentemente, nem criar nossos filhos como seres amados.

Nós conhecemos as ironias, os insultos, as pancadas que devíamos suportar, de manhã, de tarde e de noite, porque éramos negros.

Quem esquecerá que a um negro se dizia “tu”, certamente não como se diz a um amigo, mas porque o respeitável “vous” era reservado somente aos brancos?

Nós conhecemos a pilhagem de nossas terras, espoliadas em nome de textos pretensamente legais que não faziam mais do que reconhecer o direito do mais forte.

Nós conhecemos o que era a lei não ser a mesma, caso se tratasse de um branco ou de um negro, confortável para uns, cruel e desumana para os outros.

Nós conhecemos os sofrimentos atrozes dos que foram degredados por opiniões políticas ou por crenças religiosas, exilados em sua própria pátria, com sorte pior do que a morte.

Nós conhecemos o que era haver casas magníficas para os brancos e palhoças miseráveis para os negros, ou, nas lojas ditas europeias, um negro nem poder entrar, ou, nas barcaças, um negro viajar como um galináceo, aos pés do branco em sua cabine de luxo.

Quem esquecerá, enfim, os fuzilamentos onde pereceram tantos de nossos irmãos, as masmorras onde foram brutalmente atirados aqueles que não queriam mais se submeter ao regime de injustiça, opressão e exploração?

Tudo isso, meus irmãos, nós temos sofrido profundamente. Mas, também, tudo isso, nós, que fomos escolhidos, pelo voto dos seus representantes eleitos, para governar o nosso amado país, nós, que sofremos em nosso corpo e em nosso coração a opressão colonialista, dizemos a vocês, em voz alta: tudo isso finalmente acabou. […]”

Mais tarde, ele diria ao furibundo Baudoin: “Nós não somos mais vossos macacos” (Nous ne sommes plus vos singes).

“Ele não temia ninguém. Ele deixava as pessoas tão amedrontadas que tiveram que matá-lo.”

Lumumba foi primeiro-ministro por apenas dois mais meses antes de ser destituído ilegalmente e finalmente morto. Isto ocorreu sob os auspícios e a coordenação de uma seção das Nações Unidas fiel ao governo belga, às autoridades belgas e à Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA).

Em 11 de julho de 1960, a rica província do Katanga anunciou separar-se do Congo sob a liderança de Moisés Tshombé. As tropas da Bélgica prontamente vieram em seu apoio. Lumumba apelou à ONU e aos Estados Unidos, mas as potências imperialistas não deram ouvidos ao novo líder africano. Ele se virou à União Soviética, que apoiou as forças leais com medicamentos e tropas transportadas para ajudar a vencer os separatistas.

No dia 5 de Setembro, o presidente pró-imperialista Kasavubu destituiu Lumumba ilegalmente. Lumumba levou o caso ao parlamento, que o confirmou no seu posto. Em resposta, Kasavubu dissolveu o parlamento.  O secretário-geral das Nações Unidas, o sueco Dag Hammarskjold aprovou publicamente a atitude autoritária de Kasavubu. Antes disso, tropas da ONU já haviam demonstrado seu viés contrário à Lumumba, ao fechar à força uma estação de rádio que era utilizada por ele para se comunicar com o seu povo.

Em meio ao clima de instabilidade, toma o poder o coronel Joseph Mobutu, por meio de um golpe de Estado apoiado pela CIA. Lumumba é colocado em prisão domiciliar, “protegido” por tropas das Nações Unidas (as mesmas que ajudaram a derrubá-lo!).

Recusando-se a ficar preso em casa, decide fugir. Na sua fuga, é capturado pelas forças de Mobutu em 10 de Dezembro de 1960.  Em 17 de janeiro de 1961, Lumumba é transferido à força para a cidade de Lubumbashi, em Katanga, onde é torturado e morto por um pelotão de fuzilamento comandado pelo líder separatista Moïse Tshombe, ao lado de oficiais belgas.

Mobutu rebatiza o país com o nome de “Zaire” e, com o apoio do imperialismo dos EUA, impõe um regime ditatorial que perdura até o ano de 1997, quando é derrubado pela guerrilha liderada por Laurent-Désiré Kabila.

Hoje, a República Democrática do Congo, como a nação passou a ser chamada após a queda de Mobutu, completa mais um aniversário da sua independência. Uma ocasião para se refletir sobre o legado de Patrice Lumumba. Como disse Malcolm X:

“Ele não temia ninguém. Ele deixava as pessoas tão amedrontadas que tiveram que matá-lo. Eles não podiam comprá-lo, eles não podiam assustá-lo, eles não podiam alcançá-lo. Porque ele disse ao rei da Bélgica: “Cara, você pode nos libertar, você pode ter nos dado a nossa independência, mas nunca podemos esquecer estas cicatrizes”. […] Isso é o que Lumumba disse: “Você não está nos dando nada. Por acaso você pode recuperar essas cicatrizes que você colocou em nossos corpos? Você pode nos devolver os membros que você cortou enquanto você estava aqui? Não, você nunca deve esquecer o que aquele homem fez com você.”