Há 60 anos, o Rebelde cercava a cidade de de Cuba, na última batalha liderada pelo comandante Fidel Castro, no final de dezembro de 1958. Ao amanhecer do dia 1º de janeiro de 1959, o ditador Fulgencio Batista abandonava a ilha. Com a destituição do ditador alinhado aos Estados Unidos, consolidava-se assim a Revolução Cubana.

Naquele início de ano seis décadas atrás, bastaram algumas horas para os militares do Quartel de Moncada anunciarem a rendição diante dos guerrilheiros da Sierra Maestra. Essa batalha no oriente do país, também chamada de Operação Santiago, definiu o triunfo da Revolução Cubana. Era o mesmo lugar onde, cinco anos antes, havia começado a luta contra a ditadura de Batista, com o assalto ao Quartel de Moncada, no dia 26 de julho, data que deu origem ao nome do movimento guerrilheiro.

Depois da fuga do ditador Batista, Fidel Castro e sua tropa levaram sete dias para chegar à capital cubana. No dia 8 de janeiro de 1959, mais de mil combatentes rebeldes fizeram uma entrada triunfal em Havana, em cima de tanques e carros blindados do exército de Batista.

FULGENCIO BATISTA

Fulgencio Batista foi presidente de Cuba entre 1940 e 1944. Depois do mandato, foi viver nos Estados Unidos e voltou à ilha para concorrer à presidência em 1952. Foi derrotado e liderou um golpe militar para tomar o poder, onde permaneceu até ser derrubado pelos liderados por Fidel Castro.

Logo no início, os Estados Unidos reconheceram oficialmente o regime de Batista, apesar das denúncias de abuso de poder, como o aumento do próprio salário, que passou de 26 mil dólares anuais para 144 mil dólares, um dos maiores do mundo. Na comparação, à época, o salário do presidente dos Estados Unidos, Harry S. Truman, era de 100 mil dólares por ano. Batista alinhou-se com os latifundiários ricos do país, que possuíam as maiores plantações de açúcar, e conduziu a ilha para um abismo social, com economia estagnada e um aumento cada vez maior da desigualdade social entre cubanos ricos e pobres. Além disso, a corrupção e o autoritarismo eram a tônica da gestão.

Com um governo cada vez mais corrupto, as máfias estadunidenses passaram a ter grande influência no país, controlando a distribuição de drogas, jogos de azar e a prostituição. Simultaneamente, as grandes multinacionais com sede nos Estados Unidos mantinham contratos lucrativos com o governo de Fulgencio Batista.

A insatisfação popular cresceu e ficou ainda mais evidente com o apoio demonstrado pela população às forças rebeldes que, comandadas por Fidel Castro, derrubaram o governo.

APOIO POPULAR

O premiado jornalista cubano Juan Luis Marrero González descreveu em um artigo publicado pelo site Cuba Debate em 2014 o ambiente solene da chegada da Caravana da Vitória. “As portas das bodegas, restaurante, cafés, lojas, bancos, instituições econômicas, ministérios e outras dependências amanheceram fechadas em Havana naquela quinta-feira, 8 de janeiro de 1959. As principais ruas foram adornadas elegantemente com bandeiras cubanas do Movimento 26 de Julho, penduradas em órgãos do Estado, comércios e casas. Assim foi feito para que todo o povo pudesse dar calorosas boas-vindas a Fidel Castro e aos barbudos da Sierra Maestra”.

No longo caminho percorrido até Havana, cortando o país de ponta a ponta, uma multidão saiu às ruas e estradas de terra para ver e aplaudir os novos heróis. “Fidel qualificou esse momento como um ‘banho de multidões’, ‘um banho de povo’. Todos queriam ver Fidel e os combatentes que haviam dado liberdade a Cuba”, contou González na publicação do Cuba Debate. “O exército é o povo fardado”, dizia Camilo Cienfuegos, um dos comandantes da guerrilha cubana. Assim foi durante a luta armada, mas também depois da vitória revolucionária nos anos seguintes.

Um momento histórico que entrou para a memória do povo cubano.

Ernesto Che Guevara comandou a Batalha de Santa Clara, uma das mais difíceis enfrentadas pelo Exército Rebelde, quando, nos últimos dias de dezembro de 1958, apenas 340 guerrilheiros derrotaram um batalhão de 3.900 soldados, fortemente armados e equipados também com 10 tanques de guerra. Depois de sucessivas vitórias, os últimos soldados do governo de Batista se renderam no dia 1º de janeiro de 1959. A batalha foi também um episódio decisivo para os rebeldes que lutavam contra o regime do general Fulgencio Batista.

No mesmo dia, Che recebeu a ordem de Fidel para transladar sua tropa a Havana e ocupar a fortaleza militar La Cabaña. A missão foi cumprida com sucesso no dia 3 de janeiro. Anos mais tarde, Fidel Castro recordaria o dia em que Che e seus homens protagonizaram a maior proeza da guerrilha cubana.

“Quando, já ao final de dezembro, nossas forças tinham praticamente dominado a província Oriente [antiga província], Che levou a cabo uma de suas últimas proezas em nosso país. Avançou sobre a cidade de Santa Clara com 300 combatentes, enfrentou um trem blindado que estava fora da cidade, interceptou a via entre o trem e a sede das forças armadas: descarrilaram o trem, ocuparam, renderam os militares e confiscaram as armas”, relembrou Fidel em um discurso de 1971, na cidade de Santiago do , durante uma homenagem a Che Guevara.

A revolução, edificada por Fidel Castro, Raul Castro, Ernesto Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Tánia, Ciro Redondo e tantos outros guerrilheiros, , operários e estudantes, irrompeu para além das fronteiras cubanas. Influenciou movimentos políticos na América Latina, como o levante camponês colombiano, com surgimento das Forças Armadas Revolucionários da ; a Guerrilha do Araguaia, no Brasil; o Movimento dos Montoneros, na Argentina; a guerrilha urbana dos Tupamaros, no Uruguai; o Movimento Sandinista, na Nicarágua, e muitos outros. Além disso, a Revolução Cubana teve influência decisiva na luta armada em países como a África do Sul, na Guerra do , em Angola e Vietnã.No livro “A Guerra de Guerrilhas”, Che Guevara fala sobre o significado histórico da vitória popular em Cuba.

“A vitória armada do povo cubano sobre a ditadura de Batista foi um triunfo épico noticiado por jornais do mundo inteiro, modificou velhos dogmas sobre a conduta das massas populares na América Latina, demonstrando, de forma palpável, a capacidade do povo de se libertar de um governo tortuoso”, escreve Che logo no primeiro parágrafo do livro.

Foi a escolha de Cuba por outro modelo político e econômico, mais igualitário, que despertou a ira dos Estados Unidos, argumenta Che. “‘Mau exemplo’ o cubano, ‘muito mau exemplo’. Aqueles que controlam os monopólios não conseguirão dormir tranquilos enquanto esse ‘mau exemplo’ permanecer de pé, avançando em direção ao futuro”, explicou o guerrilheiro em 1961, quando os ataques dos EUA contra Cuba se intensificaram. Na obra, Che fala sobre as mudanças radicais que aconteceram logo nos primeiros anos após a derrubada de Batista pelos rebeldes.

“A Revolução Cubana liquidou os latifúndios, limitou o lucro dos monopólios estrangeiros e dos intermediários estrangeiros de capital parasitário que se dedicam ao comércio de importações. Também rompeu o monopólio de dois gigantes do setor mineiro. Cuba lançou uma política nova na América”, destaca.

Para o argentino, a construção desse novo modelo socialista cubano mostrou que era possível superar as desigualdades sociais, a corrupção e o burocratismo. A força ideológica da revolução foi o que possibilitou que se superassem todas as notícias falsas e contrárias divulgadas pelos grandes meios de comunicação.

“A Revolução Cubana rompeu todas as barreiras impostas pelas empresas de notícias e difundiu sua verdade, que se espalhou como uma carreira de pólvora entre as massas americanas ansiosas por uma vida melhor. Cuba é um símbolo de nova nacionalidade e Fidel Castro, símbolo de liberação”, afirma Che.

O triunfo dos guerrilheiros foi militar, mas também moral. Essa questão aparece em várias análises e registros históricos ao longo desses 60 anos. Uma anedota retrata como o líder da revolução era visto pela população. Em 1979, antes de viajar para a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, um jornalista questionou Fidel Castro acerca de um rumor de que ele “sempre andava protegido por uma roupa”.

“Qual roupa?”, respondeu Castro, tirando da boca o charuto cubano, para desabotoar a camisa.

“Todo mundo diz que o senhor tem um colete à prova de balas”, insiste o jornalista.

“Não”, responde Castro, sorrindo enquanto mostra o peito descoberto. “Vou desembarcar assim em Nova York. Tenho um colete moral, que é mais forte. Esse é o que me protege sempre”.

Fidel Castro acreditava profundamente na dignidade do povo cubano e no moral da Revolução Cubana como fortalezas que impediram os Estados Unidos de lançarem uma guerra aberta contra Cuba.

“Meu pior inimigo? Eu acredito que não tenho inimigo pior, porque creio que todos os inimigos podem ser vencidos”, disse Fidel, com a convicção de um revolucionário, em uma entrevista concedida em 1995.

Texto: Fania Rodrigues