No dia 9 de Maio de 1964, Carlos Marighella resistiu à prisão dentro de um cinema sendo gravemente ferido à bala e derrubado à pancadas na calçada enquanto diversos policiais do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) não conseguiam dominá-lo. Marighella estava com 52 anos de idade e gritava denunciando ao povo:

“Abaixo a Ditadura Militar Fascista! Viva a Democracia!”

Pouco mais de um mês depois do golpe de Estado que depôs o presidente João Goulart, o revolucionário Carlos Marighella resistiu à voz de prisão proferida por agentes da polícia política do Rio, em um cinema na zona norte. Na sala do Eskye-Tijuca tomada por crianças, Marighella foi baleado, três perfurações em seu corpo. Ferido, o cinquentão lutou capoeira contra os repressores do DOPS. Para sorte dele, escapou com vida.

A atitude de Marighella foi uma resposta pública à ditadura recém-instalada. Tamanha sua repercussão, e por representar uma síntese do militante marcado pela ação que, mesmo atingido, não se entregou. A resistência imposta pelo líder comunista o levou num corpo a corpo com os agentes da repressão. Precisou que uma coronhada na cabeça o pusesse a pique. Tudo foi documentado por um fotógrafo do Correio da Manhã. O ato de Marighella tornou-se um dos símbolos da resistência ativa à ditadura militar.

Alguns meses depois descreveria essa experiência e colocaria suas opiniões sobre a tática a ser adotada contra a ditadura no livro “Como resisti à prisão”. Ali escreveu: “Os brasileiros estão diante de uma alternativa. Ou resistem à situação criada com o golpe de 1º de abril ou se conformam com ela. O conformismo é a morte”. Continuou: “A grande falha deste caminho (trilhado pelo PCB) era a crença na capacidade de direção da burguesia, a dependência da liderança proletária à política efetuada pelo governo de então”. O autor, pela primeira vez, advogava a necessidade de se utilizar da violência revolucionária contra os generais no poder:

“A ditadura surgiu da violência empregada pelos golpistas contra a nação, e não pode esperar menos que a violência por parte do povo para enfrentar os crimes cometidos pelo governo e os militares (…)”

Por que resisti à prisão

Por que resisti à prisão é um livro composto de maneira interessante, pois começa por um fato concreto, que ele descreve a sua prisão em 9 de maio de 1964, a brutalidade durante uma sessão de cinema cheia de crianças que por muito pouco não o levou à morte, no bairro do Tijuca, no Rio de Janeiro. Marighella, homem que não conhecia o medo, resistiu (…)

O livro é de 1965 e muita coisa ainda mais grave estaria por acontecer, na vida de Marighella e na vida do povo brasileiro. É um documento inestimável sobre resistência e o momento histórico do país. Digno de ser lido e admirado pela expressividade da escrita, a lógica da composição e a chama revolucionária de um lutador intemerato, um comunista e marxista exemplar, na prática.

Pronto para aceitar os matizes da realidade e a pluralidade das opiniões, lutou incansavelmente para que abolisse a máscara dos regimes destinados a perpetuar o privilégio. Quando sabemos que o preço que pagou foi a própria vida, avaliamos plenamente a estatura de Marighella como herói do povo brasileiro e o significado desta narrativa de uma experiência pessoal coroada pela teoria da luta pela liberdade.

O livro para download: https://bit.ly/2rzcX7F